O Rio de Tião
Motivações que resumem a disputa eleitoral no Rio de Janeiro, neste momento, e que por isso a tornam tããão interessante:
- o importante é o projeto político mais amplo, por isso é preciso firmar parcerias em âmbito estadual e federal com o município
- eu quero um jeito novo de fazer política, um jeito ético, com coerência, com responsabilidade e propostas de sustentabilidade
- eu voto até em um mamulengo, desde que ele tenha o apoio do PT e do PMDB
- um governante governa para além de sua base aliada; pouco importa se PSDB e DEM ofereceram apoio; ofereça quem mais quiser
É muito difícil, para uma população (em que me incluo) acostumada a se ladear entre direita e esquerda, entender que o que temos agora é a direita da esquerda e a esquerda da direita. Ou talvez, para os radicais comunistas (que sempre comem criancinhas): a direita da esquerda e a direita da direita. Para mim, o posicionamento, à direita ou à esquerda, da própria direita pouco me importa. O que estou querendo chamar atenção é, de modo bem pragmático, que hoje temos um candidato de direita apoiado pela esquerda e um candidato de esquerda apoiado pela direita. Isso é ou não é uma bagunça?
Mas isso, claro, é só um reflexo da eleição de um líder de esquerda para a presidência. A pergunta que ficou na época foi: será que a esquerda foi feita para tomar o poder? O que temos à esquerda da esquerda? E essa pergunta, como se vê no Rio, ainda não calou.
Mas a quase-porradaria apócrifa entre Gabeira e Paes só pega carona nessa dúvida existencial. O que está em jogo nesse segundo turno é uma guerra ainda maior. Uma guerra que opõe partidos e pessoas. Uma guerra que indica claramente que estamos diante de uma disputa entre um caudilho e uma máquina partidária. Mais uma disputa do gênero. Mas esse round é decisivo. Ao menos até os próximos dois anos.
Quem vota em Paes não vota em Paes, vota em Cabral e em Lula. Vota no projeto político de esquerda que assumiu as rédeas do país nos últimos anos, e que está claramente ameaçado para as próximas eleições federais. Então é bom garantir, pelos menos na esfera local, essa realidade. Mas Paes sempre foi um homem de direita. Um calouro treinado para ser líder, mas só treinado. Ele é um resquício neocoronelista da política de base regional, com discurso imediatista e pragmático. Ele olha para a câmera, sabe o que é uma AP-3 e se refere a Barros Filho e Inhoaíba como se um prefeito realmente tivesse obrigação de deter todo o conhecimento sobre essas áreas da cidade. A tentativa é obviamente de polarizar com um político mais global, cujo discurso abstrato e liberalizante é reconhecido nacionalmente pelo combate aberto à ditadura militar e ao conservadorismo. Os eleitores de Gabeira, na teoria, dizem votar na coerência. Na prática, porém, eles votam na liderança. A coerência ficou para trás na reta final, quando ele recebeu de bom grado o apoio dos partidos de oposição ao Governo Lula e também do Clube Militar. Gabeira, que sempre foi pró-Lula, agora é anti-Lula e até estuda para responder sobre o ranqueamento do pólo de desenvolvimento de Inhoaíba no debate. Paes, que sempre foi anti-Lula (Não há nada que um bilhete de desculpas à Dona Marisa não resolva!), agora é pró-Cabral - e Cabral é pró-Lula, claro. Então, o que fica patente é que ou se vota no partido ou na liderança. Porque se você vota em Paes, poderia estar votando na Jandira, no Crivella, em qualquer um que recebesse o apoio do Lula. Quem está lá não é o Paes, mas o Lula, representado, de uma forma ou de outra, pela aliança entre PT e PMDB, mesmo que costurada entre Babus e Piccianis. Por outro lado, se você vota em Gabeira, está pressupondo que a política pode (ou ainda pode) ser feita por líderes populistas, que o mais importante é a pessoa no comando, ainda que essa pessoa tenha o apoio do FHC, do Serra, do Alckmin, do Bornhausen, do César e do Rodrigo Maia, e do Caetano Veloso. Ah, e também da Frossard, e do Roberto Freire. E também do Leonardo Boff, do Niemeyer, do Jorge Roberto da Silveira, e por aí vai. É curioso e emblemático que o cara que representa a máquina partidária seja apoiado pelos partidos, e o cara que representa as lideranças isoladas seja apoiado por líderes isolados da sociedade civil. Curioso também que Gabeira, isolado no seu carisma personalista, se eleito, teria uma evidente base aliada mais forte que Paes, que, não fosse pelo crescimento do PMDB herdado por Cabral, seria, este sim, um governante isolado.
No passado, o Rio sempre teve colada à sua disputa eleitoral nacionalizada a imagem de grandes líderes. Para o bem ou para o mal, houve Vargas, Lacerda, Chagas (que, por favor, não é meu parente!), Brizola, Garotinho, César e Garotinha. Agora, Cabral. Agora, Crivella. E agora, Gabeira. Daí o recrudescimento do voluntarismo na sua campanha - mas é claro que o jingle e o sufixo parelho com o nome da cidade ajudam: o Rio de Gabeira é uma ótima tirada!
O empate técnico entre ambos os candidatos está na dificuldade de traçar a importância da máquina partidária no governo do próximo prefeito. E temos esta dificuldade somente porque estivemos por mais de década e meia alijados da máquina federal e estadual. E note que década e meia envolve muito mais que o Governo Lula. O empate técnico é também um empate "histórico". Histórico não no sentido de que é memorável apenas, mas no sentido de que o embate entre Gabeira e Paes é também ele um embate entre trajetórias políticas e histórias de vida distintas. Há o confronto marcado entre o sujeito que foi guerrilheiro no passado e o rapaz que, segundo o próprio, se preparou a vida inteira para ser prefeito do Rio (muito embora na eleição passada tenha tentado de cara ser governador). É uma guerra particular entre local e global, partido e caudilho, juventude e experiência, experiência administrativa e combatividade. Mas é uma guerra implícita entre futuro e passado, um tentando sobrepujar o outro e mostrar que importa mais. Se é o passado de 1968 de Gabeira, ou o passado da enchente de Jacarepaguá de Paes. Se é o futuro da salvação e do "novo modo de fazer política" de Gabeira, ou se é o futuro do alinhamento político com a União de Paes. Nós estamos mergulhados na dúvida e nos culpando pela dívida histórica dos Maia (e não falo dos pobres conquistados pelos colonizadores espanhóis - por qué no te callas?). E agora? O que fazer? Votar num mamulengo ou num pretenso titeriteiro?
E a pergunta que não quer calar (a última! juro!): por que o Macaco Tião não se candidata de novo?
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