Juiz de paz

Casamento é um acordo de cavalheiros. Um contrato. Eu vendo, você compra. Mas não aceito crediário. Não venha me fazer planos para daqui quarenta dias, nem me dizer o dinheiro paga até felicidade. Felicidade é coisa de burguês. Casamento é contrato. E muito embora contrato também seja coisa de burguês, a instituição matrimonial nunca foi instância para se perseguir felicidade.
Ser feliz no casamento é papo de feminista contra-cultural. E contra-cultura é fenômeno típico de vanguarda capitalista. Casamento é contrato e contrato, muito mais do que coisa burguês, é resquício medieval. Eu caso para garantir terras aos meus herdeiros (naquela época não se falava com assiduidade em dinheiro, só em terras). É o típico golpe do baú. O casamento por natureza é um golpe do baú. Para se proteger do golpe, a burguesia intentou de inventar a separação de bens. E até mesmo naturalizar o divórcio, que foi cisma luterana. Desde então divorcia-se quem tem juízo, e o casamento passa a ser coisa de momento: eterno enquanto dure. Casamento é contrato. Divórcio é quebra de contrato.
No mais das vezes quem quebra contrato é negociador antiético. Chances há de que o contrato seja quebrado porque antes não se soube negociar. A negociação se dá antes de se firmar o acordo. E casamento, eu já disse, é um acordo de cavalheiros. Um contrato.
Há quem compre o produto pensando na felicidade de possuí-lo, mas a instituição matrimonial não é uma busca individual egotista, é um ideal de bem comum. As liberdades do indivíduo são restritas em favor da liberdade da coletividade.
É o fim do estado de natureza, onde os indivíduos masturbavam-se, sodomizavam-se mutuamente e faziam ganguebangues sem camisinha. E eu não falo (falo?) de casamento monogâmico. De forma genérica, casamento não liberta, não expande, casamento contrai. Contrai núpcias. É um processo de interiorização. Um acabrunhamento sem fim. Definitivamente não é lugar de ser feliz. É lugar de ajuda e auxílio mútuo, é lugar de amizade, de mancebia, de amor talvez - amor acaba? - mas jamais de felicidade.
Grande parte dos casamentos se inicia com paixão. Mas paixão, como o casamento burguês, é coisa de momento. Ela resfria e o que sobra é o contrato, a obrigação, o dever mútuo.
As núpcias burguesas só têm lugar para direitos. E o lugar dos direitos irrestritos não é contratualista, é estado de natureza. Ao meu ver, quase estado de exceção. Quando um não quer, dois não brigam. E casamento, cavalheiros, é um acordo.
ADENDO HERMENÊUTICO ENIGMÁTICO
Uma árvore cai no meio da floresta e não há quem possa ouvi-la cair. Há som?
Interpretação do físico quântico: o observador interfere ativamente com seu olhar no experimento observado.
Interpretação do comunicador: não há mensagem sem recepção, a comunicação é uma via de mão dupla.
Interpretação do historiador: o tempo deixa marcas, mas a memória é um processo constante de disputas e reinterpretações do passado.
Interpretação do suicida: tire os sapatos primeiro.






















