30.11.07

Juiz de paz

achakladar on Flickr.com CC-BY

Casamento é um acordo de cavalheiros. Um contrato. Eu vendo, você compra. Mas não aceito crediário. Não venha me fazer planos para daqui quarenta dias, nem me dizer o dinheiro paga até felicidade. Felicidade é coisa de burguês. Casamento é contrato. E muito embora contrato também seja coisa de burguês, a instituição matrimonial nunca foi instância para se perseguir felicidade.kumon on Flickr.com CC-BY

Ser feliz no casamento é papo de feminista contra-cultural. E contra-cultura é fenômeno típico de vanguarda capitalista. Casamento é contrato e contrato, muito mais do que coisa burguês, é resquício medieval. Eu caso para garantir terras aos meus herdeiros (naquela época não se falava com assiduidade em dinheiro, só em terras). É o típico golpe do baú. O casamento por natureza é um golpe do baú. Para se proteger do golpe, a burguesia intentou de inventar a separação de bens. E até mesmo naturalizar o divórcio, que foi cisma luterana. Desde então divorcia-se quem tem juízo, e o casamento passa a ser coisa de momento: eterno enquanto dure. Casamento é contrato. Divórcio é quebra de contrato.sjoe on Flickr.com CC-BY

No mais das vezes quem quebra contrato é negociador antiético. Chances há de que o contrato seja quebrado porque antes não se soube negociar. A negociação se dá antes de se firmar o acordo. E casamento, eu já disse, é um acordo de cavalheiros. Um contrato.

Há quem compre o produto pensando na felicidade de possuí-lo, mas a instituição matrimonial não é uma busca individual egotista, é um ideal de bem comum. As liberdades do indivíduo são restritas em favor da liberdade da coletividade. prakhar on Flickr.com CC-BYÉ o fim do estado de natureza, onde os indivíduos masturbavam-se, sodomizavam-se mutuamente e faziam ganguebangues sem camisinha. E eu não falo (falo?) de casamento monogâmico. De forma genérica, casamento não liberta, não expande, casamento contrai. Contrai núpcias. É um processo de interiorização. Um acabrunhamento sem fim. Definitivamente não é lugar de ser feliz. É lugar de ajuda e auxílio mútuo, é lugar de amizade, de mancebia, de amor talvez - amor acaba? - mas jamais de felicidade.

Grande parte dos casamentos se inicia com paixão. Mas paixão, como o casamento burguês, é coisa de momento. Ela resfria e o que sobra é o contrato, a obrigação, o dever mútuo. weird beard on Flickr.com CC-BYAs núpcias burguesas só têm lugar para direitos. E o lugar dos direitos irrestritos não é contratualista, é estado de natureza. Ao meu ver, quase estado de exceção. Quando um não quer, dois não brigam. E casamento, cavalheiros, é um acordo.

ADENDO HERMENÊUTICO ENIGMÁTICO

Uma árvore cai no meio da floresta e não há quem possa ouvi-la cair. Há som?

Interpretação do físico quântico: o observador interfere ativamente com seu olhar no experimento observado.

Interpretação do comunicador: não há mensagem sem recepção, a comunicação é uma via de mão dupla.

Interpretação do historiador: o tempo deixa marcas, mas a memória é um processo constante de disputas e reinterpretações do passado.

Interpretação do suicida: tire os sapatos primeiro.

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19.11.07

O silêncio da minha viagem

pedroprio no Flickr.com CC-BY
A bala. O chicrete. O silêncio da minha viagem.
Olha a bala. O chicrete. Barrinha de cereals. Duas é um reals. O silêncio da minha viagem.
Por esses dias, andei de ônibus, de trem, de carro e de metrô. Experimentei as quatro patas de todos os gêneros e não cheguei a nenhuma conclusão. Só reparei curioso em cada diferença, em cada produto, em cada história que se tinha para contar.


Eu podia estar roubando...

O homem entra no coletivo e sai repassando bilhetinhos, sem falar palavra. Um velhinho retorce o bico e o ambulante mal-encarado encara com um "o senhor pega só por pegar, depois eu recolho". Intimidador. Agora eu pergunto: que tipo de gente acha que um sujeito vai comprar o pacotinho só porque ficou segurando um tempo enquanto ele apresentava a sua promoção? Eu imagino que a idéia fosse apenas facilitar a sua vida na hora de contar quem pegou e quem não pegou pacotinho, mas mesmo assim não me entra muito na cabeça aquele mal-encaro "pega só por pegar".
Era um ex-viciado (existe?) que dizia ter sido salvo por Jesus ("só Jesus expulsa demônio das pessoas").

Barrinha de cereals.

Não sei exatamente por que cargas d'água alguém instruiu os camelôs a fazer composto o substantivo barrinha-de-cereal e a adverbializar o barrinha, para que o plural fique sendo "de cereals". Digo "alguém instruiu" porque nitidamente isso não pode advir de um inconsciente coletivo da humanidade-camelô. No dialeto deles, parece óbvio que duas barrinhas de cereal ou duas barrinhas de cereais são opções ene-erre-á. Mas isso, na minha opinião, só prova que há uma mão invisível que os treina. Talvez uma multinacional como a Halls ou a Bauducco financiem cursos de capacitação. Isso ainda é um mistério. Mas a impressão que tenho quando vejo um vendedor de guarda-chuvas aparecer no meio do toró ou um vendedor de biscoitos Globo surgir no exato momento em que o trânsito engarrafa, eu tenho com o treinamento de camelôs para ônibus. Que outra hipótese justificaria os bilhetinhos padronizados que são grampeados nos saquinhos plásticos ou o inexplicável afã por aqueles ganchos de pendurar nas barras dos coletivos? Que força maior os teria feito decorar o bordão do "desculpe mais uma vez incomodar o silêncio da sua viagem"?
Em todo caso, as barrinhas fazem sucesso. Quem não deu muito certo foi o torrone...

"Essa é guerreira" e "O Baixinho tava tomando uma coça para sair desse ponto"

É curioso como eles se cumprimentam, se conhecem e conhecem bem as rotas de ônibus da cidade. Mas há um diferença sutil entre as solidariedades dos vendedores de ônibus e a dos vendedores de trem. Nos ônibus, eles precisam estar sós. Repare que um ambulante nunca entra no instante em que o outro está lá, ou se entra fica sentado lá no fundinho, aguardando o momento do estrelato. Nos trens, os vendedores andam em comboios. Eles precisam da ajuda de um e outro para abrir e fechar as portas das composições e têm espaço suficiente e recato de menos para andar pelo vagão esbravejando.
Eles começam cedo e terminam tarde as rondas. Nos pontos de ônibus, quando há um ambulante recém-descido de um coletivo, ele aguarda até que os colegas que porventura estivessem no ponto tenham todos subido em outros respectivos ônibus. Ou seja, há uma fila. Há uma ordem. Não é a Casa da Mãe Joana.

Senhores passageiros

Quem anda de ônibus nos corredores da Zona Norte sabe que mais cedo ou mais tarde alguém irá entrar com um ganchinho de pendurar saquinhos de bala e se apresentará (é claro, pedindo desculpas por incomodar o silêncio da sua viagem). No trem esse pudor já não existe. É um tal de se circular para cima e para baixo objetivamente apresentando o produto: "Prestígio, Sulflair. Dois é um real" "Pele. O saquinho é cinquenta" "Tropa de Elite um, dois, três é dois!"
Vendedores piratas são uma descoberta sensacional em trens. É curioso pensar por que a moda ainda não pegou nos ônibus. Mas o trem definitivamente é um ambiente à parte. É como se os vagões já fossem planejados para se deixar circular os vendedores ambulantes. No metrô, há barras verticais que impediriam o vaivém do trabalhador honesto. Além do mais, veja que o trem, diga-se lá pelo carteado, pelo marejar nauseante, pelo lixo e pelo "espaço entre o trem e a plataforma", que é tão advertido nos alto-falantes do metrô, é cultura popular da grossa.

Tropa da Elite

O metrô não tem ambulantes. Mas o silêncio da minha viagem é incomodado pelos constantes avisos e anúncios no alto-falante. E a pipoca amanteigada da Estação Estácio me revira o estômago pelo avesso.

E de carro...

... a viagem é tão mais rápida que não dá tempo de ler. O melhor é botar uma música alta, para ao menos não ser aquele silêêêncio...

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