24.3.07

O que Knut e Treadwell têm em comum?

D.Bjorn (no Flickr.com)Parei para pensar sobre isso não apenas porque quando tinha quinze anos vi, no zoológico, um urso sentar-se de pernas cruzadas e olhar no fundo dos meus olhos como se fosse um ser humano, mas também porque, desde o Hermeto Pascoal e de uma barata que avistei no banheiro da universidade, tenho um imenso respeito pelos albinos. Por isso, digo sem me contorcer, deixem o Knut trabalhar! Knut, para quem não lê jornal (por que diabos alguém não leria jornal e leria este blog?), é o mais novo xodó do sr. Frank Albrecht, uma espécie de Mario Moscatelli da Alemanha.

Não sei e não tenho curiosidade de saber de onde vem Knut, esse nome. Se for por conta de Knut Hamsun, o prêmio Nobel, poderia comparar o urso a um escritor renomado. E fará algum sentido interromper minha série de devaneios literários para introduzir essa pensata. Sendo por causa de Knut Wicksell, o economista, direi que faz todo sentido a mãe rejeitar um neomalthusiano. A verdade é que Knut deve significar alguma coisa em alguma língua, mas eu desconheço e não sei bem o que é. Só sei que Knut tem nome de lanterna verde e isso não importa nem um pouco para o raciocínio que quero desenvolver, a não ser pelo fato de que verdes me lembram ecólogos, tanto quanto palmeirenses.

Sobre os palmeirenses, pouco tenho a comentar, exceto que por uma noite os detestei. Precisamente no dia 20 de dezembro de 2000. Já sobre os ecólogos, minha grande inspiração seria Robert Park, um sujeito da cidade, como eu. Um sujeito da cidade, como o próprio nome já denuncia. Robert E. Park, portanto, está em oposição direta, apesar do excesso de erres, à Forrest Gump. E Knut? Onde está nesta história?

Knut está bem no zoológico de Berlim. Bem é maneira de dizer. Não sei exatamente quantos anos ursídeos equivalem a um ano humano, como os anos dos cachorros, dizem, são quatro nossos, o fato é que Knut já passou, em seus alguns meses de vida, por poucas e boas. E, dependesse do adorável ecochato Albrecht, nenhuma semelhança com meu idolátrico ecólogo R. Park, Knut certamente teria abreviado seu sofrimento. O argumento de Albrecht é velho conhecido dos profissionais de mastectomia. "É melhor acabar logo com isso, porque você vai sofrer no futuro." Nenhum pensamento positivo. Nenhuma poliana. Nenhum passarinho verde. Admiro os verdes alemães. Eles foram os únicos capazes de chegar ao poder num país ultra-desenvolvido. Mas os verdes alemães não estão isentos de albrechtes.

Houve que, em depressão pós-parto, mamãe Knut rejeitou aquela bola branca de pêlos, um potencial acumulador de ácaros. Compadecido, o dissumulado Thomas Dörflein rapidamente apresentou-se como pãe do filhote, passando a responsabilizar-se pelo papá e pela hora de mimir. Knut não se fez de rogado, e sobreviveu. Acontece que, como toda história com um espelho mágico, Albrecht resolveu por conta própria que domesticar animais silvestres pode afetar o comportamento dos bichos e causar-lhes problemas psicológicos, o que eu concordo inteiramente. O próprio Albrecht, abandonado por seus pais quando miúdo (seu nome de batismo era Greystoke), convive desde pequeno com um punhado de seres humanos.

Domesticar animais silvestres chega a ser crime em um ou outro lugar do globo, mas raciocine comigo: por que matar Knut e não matar Dörflein? Quero dizer, se o urso terá problemas mentais (ou "comportamentais", na versão de Albrecht) para o resto da vida, por que diabos a recíproca não é verdadeira? E quem garante que não foi isso o que pensou o urso pardo de Treadwell?

Outro argumento que vi muito pouco debatido nos papelotes de embrulhar peixe foi o de que somos todos filhos da Mãe-Natureza. Daí, eu desdobro duas boas possibilidades: ou Knut, sendo ele também filho da Mãe-Natureza, não foi verdadeiramente abandonado pela sua genitora e portanto não está, como pensamos todos, entregue à sua própria sorte; ou Dörflein, sendo ele também filho da Mãe-Natureza é, de certa forma, irmão de Knut e portanto não representa ameaça ao ecossistema do pequenino.

Fico pensando se os animais tivessem a mesma consideração que o afável Albrecht, no episódio de Mogli, o menino lobo. No mínimo, o direito de pensar "Não, esse pequeno pobre humano poderia apresentar problemas comportamentais graves se nós, lobos, lhe déssemos de mamar. É melhor larga-lo no mundo e deixar que a natureza (a bendita Mãe-Natureza) cuide dele." Mas, não. Mogli, como Knut, foi cuidado por uma alma má como a de Dörflein e por isso cresceu e se tornou... ... ... Albrecht.

Eu particularmente acho que a solução para o impasse de Knut, essa escolha de Sofia às avessas, seria mais eficiente se, como a vara familiar, esperássemos o rebento completar doze anos para que ele próprio pudesse decidir com quem deseja morar, se com Dörflein, a mãe, ou se com Albrecht, o pai, ou vice-versa. De um modo ou de outro, o que não detiver a guarda, pagará pensão alimentícia. E, enquanto esperamos que Knut cresça para ser consultado pelo juiz da infância e da adolescência (não é à toa que o nome é Eca!), podemos ir-lhe ensinando modos civilizados, talvez uma língua com que possa se comunicar no tribunal, e quem sabe o alfabeto libras como a chimpanzé Washoe?

Um dia, no dia em que Knut celebrar seus dezoito anos (quantos anos serão dezoito anos ursídeos?), veremos o animal se reintegrar por um instante à matilha, conquanto para ele, Knut, não seja exatamente uma reintegração. Então, em linguagem de surdos-mudos, ouviremos o pobre urso voltar a nós e exclamar "Quem são esses bichos brancos?"

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