24.7.07

O trabalho aliena o homem

http://haisdeaks.deviantart.com/Você chega em casa depois de quase hora e meia de trânsito e pensa por que diabos todos precisam sair do trabalho juntos. Proudhon. Aí, tua cabeça já não presta pra mais nada. Abre a geladeira, pega uma daquelas latinhas de cerveja que sobraram do fim de semana de farra, faz o estalinho do lacre de alumínio e entorna duas goladas de uma vez só. Você limpa o bigodinho, só agora olha para a marca da cerveja e pensa porra, por que eu não comprei aquela outra. Besteira já feita, você senta largado no sofá, ainda com a calça e prestes a tirar o sapato de couro preto, novinho mas já surrado, porque sapato de hoje em dia não resiste mais à levada do dia-a-dia. Bertrand Russel poderia ter mudado tua vida. Você liga a tevê e coloca na novela por ato falho, está mesmo esperando é o futebol de quarta. Adorno. Mas aí lembra que ainda não é quarta e pensa putaquepariu, por que que campeonato brasileiro não passa todo dia em horário nobre. Ta bom, não foi exatamente assim que você pensou, mas esse era o contexto. Então você segue estatelado no sofá com o olho vidrado na novela. Tua mulher abre a porta esbaforida do mercado, toda Karenina, pede pra você ajudar com as sacolas e vai ver a novela, razão pela qual ela estava esbaforida. Gandhi. Você levanta a muito custo e fala porra, preciso emagrecer. Aí você repara que as últimas quatro ou cinco coisas que você falou ou pensou tinham um palavrão no meio. Hm... Talvez você não tenha reparado isso. As sacolas do mercado estão cada vez mais vagabundas. Marx diria o mesmo. Você não quer nem saber de alça, puxa tudo pelo colarinho e arrasta as coisas pra dentro de casa, como se atravessar a fronteira da alfândega fosse questão de vida ou morte. Você toma o cuidado de não respingar cerveja, mais por não querer perder uma gota do que por não querer derramar no tapete da sala. Maldita idéia de colocar um tapete na sala, eu vivo escorregando, você se pega resmungando para si mesmo. Sua mulher está de pé com as mãos no quadril, vendo o galã beijar a gostosa da novela. Você tinha tudo para ser galã. Nietzsche. Se não fosse essa barriguinha de cerveja. Aí você entra de volta, tira a calça. A blusa, já tinha tirado em algum momento desses. Está só de cueca, aquele amarelado de mijo que não sai de jeito nenhum. Mas você não está nem Thoreau. Você entra no box e liga o chuveiro de porta aberta. Aí você lembra que sua filha pode acordar, melhor fechar a porta. A porra do gás não está mais aquecendo, você lembra. O banho gelado serve pra te acordar um pouquinho depois do sono do trânsito. E você pensa putaqueopariu, eu preciso largar esse emprego. Durkheim! E você pensa no filhadaputa do teu chefe. Filhadaputa, você diz baixinho entre dentes. Será pecado? Até Domenico de Masi. Tua mulher bate na porta do banheiro e diz quero entrar, anda logo aí. Você fica com vontade de xingar o mundo, mas desliga a porra do chuveiro. O gás dá um estalo. Merda de aquecedor. Preciso trocar essa bodega. Você abre a porta e tua mulher tá lá ainda vendo a novela. Você veste uma samba-canção e fica só com ela. Ela, a cueca, é claro. Tua mulher aproveita o intervalo e vai pro banho. Você muda de canal. Pega o pão de de manhã, bota um cadinho de manteiga e dá uma mastigada forte pra fingir que é pão quentinho. Chomsky, Chomsky. Faz uma força de Engels. Não tem nada que preste na tevê e você chega a cogitar a hipótese de ler um livro. Bakunin? Não tô com cabeça pra isso, você pensa. Melhor ficar vendo o programa da hebe. E você forra um pano de prato pra não cair migalha na mesa da sala. Acaba de comer o teu pão, bebe um copo de coca pra arrotar. Weber. O som que sai da sua boca é parecido com este. Você ouve tua mulher sair do banho. Ela vem pra mudar o canal. Você acaba sendo obrigado a ver a novela mesmo. Ler nem pensar. Ficam vocês dois estatelados no sofá, cada um pra um lado. Nos intervalos, vocês lembram de trocar uns beijinhos, mas nada muito barulhento que a menina pode acordar. Benjamin, ela parece dizer. Depois da novela, começa o humorístico. Depois o jornal da noite. Você vai dormir quando começa o jô. Sob os apelos de não vá pra cama sem ele. Foda-se o jô, amanhã tenho que acordar cedo, você pensa. Tua mulher ainda tá escovando os dentes e você ta dando uma golada direto do gargalo da garrafa d?água. Santo Agostinho, que horror! Vocês vão para o quarto e você lembra de tirar a toalha molhada de cima da cama forrada. Ela reclama um pouquinho, mas já está acostumada. Você já está acostumado a ouvir. Os dois deitam. Agora não é hora de fazer amor, cê tá cansado pra caralho, mas mesmo assim tenta. Na-na-ni-Marcuse. Ela recusa pelo bom senso. Os dois pegam no sono, ela demora um pouco mais e no dia seguinte dirá que não conseguiu dormir a noite inteira. O despertador toca e você tenta enforcá-lo. Maquiavel na veia. Não consegue. A porra do despertador não pára. Melhor levantar. Tua mulher já tinha acordado e está no banheiro. Você desce de samba-canção pra pegar o jornal. Lê a primeira página, dá uma lavada no rosto, toma um banho tcheco e vai trabalhar. Unabomber. Pega um trânsito infernal. Você pensa putaqueopariu... Mas já falamos muito de você, que tal falar de um pouquinho de mim?

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5 Apontamento(s):

At 25 de Julho de 2007 01:14, Anonymous Bruno disse...

Muito bom o texto, parabéns.

 
At 25 de Julho de 2007 10:20, Blogger Viktor disse...

Valeu, Bruno. Te respondi lá no teu blog. Muito legal o texto dA dentista... :)

 
At 25 de Julho de 2007 16:53, Anonymous Bruno disse...

Grato pelo comentário! O sadismo, pra mim, é sempre uma fonte interessante de inspiração. Provavelmente por ser um tanto mal visto, assim como vários outros temas.

Quando concluir tua série de contos, dê um toque ;)

Abraço.

 
At 28 de Julho de 2007 18:42, Blogger Fabiana disse...

Viktor, sigo seu conselho tomando doses moderadas de seus textos. Gosto deles.

 
At 28 de Julho de 2007 21:56, Blogger contoaberto disse...

Valeu, Fabi! Que bom que me acompanha... :)
Dei uma passada nos seus blogs tb. Tb gosto muito dos seus textos. O do fuso horário é um marco!!! :))
Beijo.

 

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