Porque fazer poesia é vitral
Uma volta no relógio e foi-se a noite. Duas voltas no relógio e foi-se o dia. O escritor não vê o tempo passar. O tempo não tem olhos para o escritor impassível. Escrever é legar-se ao tempo, este inimigo mortal. O sonho de todo escritor é ser imortal. É escrever em conserva sobre o seu próprio tempo. É falar das horas que gastou escrevendo como se as tivesse gastado vivendo.O relógio martela o seu marca-passo. Escrever é não ter tempo para escrever tudo o que se gostaria. É um constante não se satisfazer pelo que está feito. É dar satisfações a quem não o merece. E deixar no papel a imprecisão de quando foi escrito.
Escrever é tentar dizer alguma coisa em meia palavra. É sofrer a angústia do inteiramente diverso. A rima, e o escritor está no meio. Leio e releio minhas poesias na certeza de que não sou escritor. Se fosse, o tempo para mim passaria mais rápido. Mas é tudo tão burocraticamente certeiro, que tenho certeza. Não sou escritor que nada. Sou personagem de mim mesmo.
Uma volta no relógio e foi-se a noite
Duas voltas no relógio e foi-se o dia
Bem que o meu escritor podia
Ter-me escrito assim: sem métrica sem tempo sem guia
Sem sombra de dúvida.
Escrever é estar certo de que escrever não é um fardo. O bardo sabe que fazer poesia é passatempo.





















